Editando o egocentrismo.

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Eu estou sentando, ao meu lado está minha esposa e nossa filha. Diante de nós, uma mesma paisagem. Tudo indica que estamos compartilhando uma mesma experiência.  Mas um pequeno detalhe, cada um está fazendo a sua leitura a partir de diferentes lógicas. Sendo assim, vivenciaremos a mesma experiência de forma muito diferente.

Hoje tenho essa mesma sensação com a fotografia, que surge na vida de cada individuo em momentos diferente. Em diferentes períodos de evolução tecnológica e com diferentes objetivos de produção e difusão da imagem.

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Ed Kashium é um dos tantos profissionais da imagem que é possível encontrar no Instagram. A lista de nomes que sigo não é das maiores, mas são nomes dos quais tenho grande admiração e interesse.

Nem mesmo consegui digerir a informação de que minha Canon 10D se tornou uma peça de museu e já é possível fotografar apenas por um comando de voz para um óculos.

Quando penso no que mudou de 2003 para cá, quando usei uma câmera digital pela primeira vez, logo tento imaginar como serão os próximos 13 anos. Muito provavelmente a única coisa que vai ter em comum com a fotografia que conheci, será a palavra fotografia – e não desconsidero a possibilidade de uma nova nomenclatura.

 

 

IMG_3103 Histórias compartilhadas no formato “6×6”,  algumas imagens produzidas com DSRL e outras com o novo iPhone 6.

 

 

É comum fazer comparações tendo a qualidade da imagem e os tantos avanços tecnológicos, como ponto de saída. Mas o que mudou foi a lógica aplicada a fotografia. O que define o momento ou o objetivo pelo qual aperto esse botão, que hoje está em um celular,  é completamente diferente do motivo pelo qual minha filha aperta.  A construção desta relação pessoal e individual com captação da imagem é completamente distinta.

Um pequeno exemplo é o fato de minha filha ter ganho sua primeira câmera com 5-6 anos de idade, uma câmera capaz de fazer fotos sub. Ao contrário dela, eu, até hoje não tive condições de me aventurar na foto sub. Ela já saiu criando uma relação da qual eu nunca criei.

Durante uma entrevista em um programa de TV, eu e alguns colegas fomos questionados sobre a popularização da fotografia e a difusão da mesma através de um aplicativo como Instagram e se isso poderia acabar com a fotografia. Minha relação com a fotografia se desenvolveu como uma ferramenta de comunicação, o que me faz ser critico, não com a popularização da fotografia, mas pelo uso da fotografia para fins de satisfazer o egocentrismo.

Lembro ainda em Manaus ter sido apresentado ao novo aplicativo em que haviam sido inseridos vários filtros, o que me causou incomodo, por não parecem mais com as imagens originais.  Depois de um tempo, vi profissionais da fotografia tão adeptos ao aplicativo que, para justificar a péssima qualidade da câmera, pioravam suas imagens aplicando um infinito numero de filtros, e passava ser mascarada como “Final art”. Pessoas também vinham mostrar as belíssimas imagens que haviam feito, feito com ajuda de dezenas de correções.

Muita coisa mudou de la para cá, os aparelhos mais modernos atualmente têm condições de fazer ótimas imagens, desta forma não é mais necessário mascarar as imperfeições com uma chuva de filtros. Também há a possibilidade de upload de arquivos obtidos com outros equipamentos como uma DSRL. Isso trouxe novos fotógrafos como adeptos do aplicativo, bem como grandes revistas e jornais.

 

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A cada dia que passa encontro novas pessoas para seguir, na fotografia vão de amadores a profissionais.  Bernardo Salce é um dos vários nomes, ele é um brasileiro que está no Camboja, um profissional independente que faz o elo com outro lado do mundo.

 

O incômodo causado pelo excesso de autorretrato  (selfs) não precisou nem de terapia, bastou eu aceitar que a relação e o uso da fotografia, não será definida seguindo os meus critérios. Sendo assim, cada indivíduo usa seus aparelhos e aplicativos como quiser, afinal esse indivíduo apenas esta aplicando sua lógica.

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Um boa edição pode ser feita em poucos cliques. Você tem o poder de optar, acompanhar pessoas na frente do espelho ou acompanhar grandes acontecimentos.